O poder de mudar gerações
Paulo Kretly
Um dia, quando eu tinha sete anos e acabara de ser alfabetizado, resolvi, por brincadeira, escrever um livro junto com meu amigo Roberto. "A Vida" era o originalíssimo título que bolamos para nossa primeira experiência literária. Mas logo admitimos que, do alto de nossos sete anos, nada sabíamos sobre o assunto a ser abordado. Decidimos, então, consultar nossas mães, aquelas que, para nós, deveriam ter resposta para tudo. Procuramos, primeiro, dona Hilda, a mãe de Roberto, e ficamos espantados diante de sua arrasadora resposta. "A vida é uma desgraça", disparou ela, prontamente. "A vida é cozinhar, lavar, limpar...", prosseguiu, entoando uma interminável ladainha de tragédias.
Depois de preencher uma página de meu caderno com sua visão pessimista e limitada da vida, senti-me tão desmotivado que decidi dar o livro por encerrado - suas palavras eram tão amargas que conseguiram arrefecer até mesmo o entusiasmo natural da infância. Mas Roberto insistiu para que continuássemos e, assim, fomos procurar minha mãe. Encontramos dona Otília esfregando roupas no tanque. Ela e dona Hilda tinham mais ou menos a mesma idade e o mesmo padrão socioeconômico, com a diferença de que dona Hilda teve apenas um filho, enquanto minha mãe teve sete. Ao ouvir nossa pergunta, dona Otília interrompeu seus afazeres e abriu um amplo sorriso. Ainda me lembro do brilho em seus olhos quando disse: "A vida é uma maravilha, uma dádiva de Deus. Existem problemas, mas as alegrias são maiores". E se pôs a enumerar os prazeres e as alegrias da vida, fazendo-nos encher três páginas do caderno com sua visão positiva e encorajadora.
Isso foi há 35 anos. Embora o livro de minha infância nunca tenha sido completado no papel, creio que, de certa forma, ele foi escrito em minha própria vida. Nas escolhas que fiz, nos valores que assumi, ainda ecoam as palavras e o exemplo de dona Otília. Hoje, dona Hilda mora na mesma casinha na qual sempre viveu, uma construção modesta que não oculta os traços de abandono e decadência que o tempo lhe deu. Dona Hilda sobrevive à custa de uma minguada aposentadoria ao lado do filho desempregado, e é possível que encontre uma amarga satisfação ao pensar: "Não disse? A vida é mesmo uma desgraça".
Dona Otília também mora na mesma casa. Sua residência, porém, sofreu várias reformas e ampliações, exibindo uma aparência bem-cuidada e um ar de aconchego. Todos os seus sete filhos foram bem encaminhados e hoje ela tem 26 netos e nove bisnetos. E, aos 82 anos, com certeza encontra uma reconfortante satisfação ao pensar: "Não disse? A vida é mesmo uma maravilha".
Minha mãe é uma figura de transição, porque é dona de uma visão progressista e ética mesmo em ambientes desfavoráveis, rompeu com uma tradição familiar nociva e estagnante, não foi conivente com os hábitos desonestos de seus colegas de trabalho e conseguiu transmitir esses valores a seus filhos, netos e bisnetos. Ou seja, foi uma pessoa que realmente mudou gerações. Sua história mostra que não são apenas os acontecimentos dramáticos que colocam à prova a firmeza com que seguimos nossos princípios.
Somos testados a cada dia, a cada hora, até mesmo quando uma criança nos pergunta: "O que é a vida?" Nossas respostas definem a pessoa que queremos ser.
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